Embora o trabalho paroquial seja muito questionado no interior da Ordem (veja, por exemplo os questionamentos do Mestre da Ordem no item 3 da carta de Julho 96 no encerramento de sua visita canônica), continua sendo na Província a área onde há mais frades inseridos.
Este texto a pedido da Comissão de Missão tem como
objetivo apenas desencadear uma reflexão ampla e profunda sobre a missão da
Ordem junto às paróquias. O assunto é muito amplo. Neste texto apresento
apenas alguns pontos fundamentais para se dar o ponta pé inicial na discussão.
Com certeza há muitois outros pontos igualmente importantes que aparecerão num
futuro debate mais amplo.
Creio não ser necessário retomar a questão do perfil de uma paróquia O. P., uma vez que já está muito bem delineado nos nº 49 a 54 de nossas Atas. Agradeço aos confrades que me enviaram sua contribuição respondendo gentilmente ao questionário a eles enviado(freis Humberto, Ronaldo, Edmilson, Vicente, João Basílio, João Xerri, Marcos Faria, Marcos Belei, Mário Rodrigues e Manoel Borges, Papin e D. Celso).
1.O DESAFIO - O trabalho paroquial na cidade continua sendo um grande desafio. A paróquia é uma estrutura rural num mundo urbano. É um carro de boi no centro da cidade disputando uma corrida com modernos carros. A estrutura paroquial cresceu e se firmou no meio rural. Na Igreja Matriz ou na Capela rural tudo corria bem. Os féis se conheciam e participavam de todas atividades religiosas. O “carro de boi” pontificava e circulava tranqüilamente pelas ruas empoeiradas e esburacadas da cidadezinha. O ranger de suas rodas era como música suave.
Mas a cidadezinha cresceu. Hoje tem 100 mil, 500 mil e até mais de dez milhões de habitantes. Mas o “carro de boi” continua lá no centro da cidade numa desleal concorrência com os modernos carros sem perceber que é uma boa idéia fora de lugar. Qual é, por exemplo, a força dos 15 minutos do sermão libertador do sacerdote diante da mensagem opressora e pornográfica das telenovelas?
Quando
o sino da Capela ou da Matriz repicava todos para lá
se dirigiam. Hoje, nos Domingos, a Eucaristia é trocada pelo passeio na
fazenda, pela diversão no clube ou uma ida à praia. Os mais escrupulosos
procuram por “uma missa mais curta” para
farisaicamente cumprir o preceito dominical.
Quantos
casamentos de cunho meramente social! Quantas pessoas que vão à Igreja apenas
nos batizados, missas de 7o dia, casamentos, formaturas
etc. Quantas missas onde os participantes estão alheios a tudo, chegando
ao cúmulo do “cabra” sair da Igreja após o “abraço da Paz” pensando
que fosse os “cumprimentos de despedida”.
2.LEQUE
DE POSSIBILIDADES O que dissemos acima é uma
realidade. Entretanto, sabemos que há também um grande potencial
evangelizador nas paróquias. A Paróquia nos oferece um leque imenso de
atividades evangelizadoras propriamente dominicanas. Nelas podemos encontrar
todos os elementos necessários para um genuíno
trabalho dominicano. São Domingos fundou a Ordem Dominicana para, imitando
o modo de viver dos apóstolos, dar à comunidade
urbana nascente uma resposta eficaz de evangelização. A Ordem cresceu e se
desenvolveu nessa perspectiva do novo urbano emergente. O trabalho paroquial,
expressão do mundo antigo e rural,
fora recusado pela Ordem. Hoje a
paróquia já não é mais uma realidade rural. Pelo contrário é uma realidade
tipicamente urbana, embora ‘estruturalmente
arcaica’. A Ordem dominicana, tradicionalmente urbana, hoje é chamada
pela Igreja, e tem condições para isso, a dar sua contribuição à Evangelização
e renovação desta nova realidade urbana
das paróquias. Somos chamados a
dar a nossa contribuição para “renovar
a capacidade de acolhida e o dinamismo missionário” das paróquias
(Cf. Sto. Domingo n.60).
Os
frades dominicanos devem ser "fervorosos
na comum celebração da liturgia,
principalmente da Eucaristia,...assíduos no estudo..." (Cf. Constituição Fundamental nº
IV). A Paróquia
é um lugar privilegiado para se viver esta espiritualidade pois, "A Paróquia é a comunidade Eucarística, é o centro da Vida Litúrgica
das famílias cristãs; é um lugar privilegiado da catequese dos filhos e dos
pais"(Catecismo da
Igreja Católica nº 2226).
Em
nossas paróquias há centenas de crianças, jovens e pais envolvidos na
catequese(somente nas três comunidades da Paróquia Santo Antônio em
Curitiba, por exemplo, há 90 catequistas e aproximadamente 800 catequizandos
entre crianças e jovens).
Todo esse pessoal, especialmente as lideranças, estão sedentos de formação
teológica que é uma tarefa própria do frade dominicano. No campo da formação
cristã podemos destacar ainda os vários cursos Bíblicos que se realizam em
nossas paróquias. Neste ano, por exemplo, na Paróquia S. Judas Tadeu em Goiânia
frei Marcos Belei assessorou um curso Bíblico de cinco noites para 120 pessoas. Na Paróquia Santo Antonio em Curitiba, também
houve um curso bíblico de 5 noites com a participação de 300 pessoas,
assessorado por frei Eduardo.
Na
Paróquia de Vila Centenário em Curitiba também há um curso de teologia para
leigos(CTAP)que funciona há 7 anos. São 120 agentes de pastorais que se reúnem
uma vez por semana a noite. A formação cristã nas paróquias é uma recomendação de toda a Igreja(Cf. Santo Domingo n. 60). A
Ordem pode e deve oferecer este tipo de colaboração à Igreja do Senhor.
Outro
campo privilegiado de evangelização oferecido pela paróquia é a celebração
litúrgica. O concílio Vaticano II nos afirma que “a
Eucaristia se apresenta como fonte e ápice de toda evangelização”(P.O.
n.5) e o objetivo
principal da Ordem é a Evangelização. E milhares de pessoas participam das
Celebrações Eucarísticas em nossas paróquias nos finais de semana. Apenas
mais um exemplo: a Celebração Eucarística de encerramento do mês bíblico
na paróquia de Vila Centenário reuniu cerca de 1200 pessoas esse ano.
A paróquia é também um promissor campo para um trabalho missionário. A quase totalidade dos 133.631.086 dólares que o Vaticano enviou para o trabalho missionário junto a população pobre dos cinco continentes são oriundos das Paróquias(Óbolo de São Pedro e Coleta das Missões). Em resposta ao mestre da Ordem que em sua carta após a visita canônica de 1996 nos questionava sobre o trabalho em paróquias de classe média(“Como poderemos conseguir que as pessoas de classe média, inclinadas às vezes, ao conformismo, possam participar de maneira ativa de uma missão de fronteira?) a Paróquia S. Judas em Goiânia já iniciou um trabalho missionário junto a uma comunidade de periferia. O projeto de Missões populares proposto pela CNBB para as paróquias é essencialmente missionário(veja o livro do Pe. Luis Mosconi sôbre as Missões Populares – Paulinas). Para atingir os 90% dos católicos que não vão à Igreja toda paróquia é chamada a ser missionária: ”A Paróquia, comunhão orgânica e missionária, é assim uma rede de comunidades”.(Sto. Domingo n.58) Apartir do momento em que o trabalho paroquial for assumido pela comunidade religiosa a itinerância, característica essencial missionariedade e da nossa vida religiosa dominicana, não será prejudicada.
3- LEIGOS -Há necessidade de uma maior participação do leigo conforme os documentos da Ordem e da Igreja. Em sua carta sobre sobre a espiritualidade do governo o Mestre da Ordem nos apresenta um texto sobre a autoridade que serve muito bem às paróquias: ”Os superiores gozam de autoridade em virtude de seu cargo; os teólogos e pensadores, em virtude de seu conhecimento; ...os mais velhos em virtude de sua experiência; nos mais jovens a autoridade vem de seus conhecimentos do mundo contemporâneo com seus problemas”(O documento 62 da CNBB e a exortação Christifideles Laici do Papa João Paulo II são ótimos subsídios)
4 A PARÓQUIA,...acolhe as angustias e e esperanças dos homens, anima e orienta a comunhão...”(Cf. Sto Domingo 58). O mundo moderno e urbano, marcado por pessoas angustiadas e solitárias, exige que a paróquia seja uma comunidade de acolhida fraterna com uma profunda vida de oração onde o”coração desta oração seja a vivência sacramental especialmente a Eucaristia”(Cf. Atas n.115).É necessário uma preparação adequada para os párocos e vigários paroquiais. A frente de cada paróquia deveria estar frades devidamente preparados, que gostassem do trabalho e o fizessem com paixão, criatividade e “renovado ardor missionário”(Cf. doc. 61 CNBB).Temos que iniciar o mais urgente possível um profundo debate a nível de província sobre nossa missão junto às paròquias. Ainda há muitos preconceitos. Muitas vezes apenas se tolera o trabalho paroquial. O Primeiro passo será formar um comissão permanente do trabalho paroquial para refletir, apontar caminhos e dar subsídios. É urgentíssimo iniciar essa caminhada. Não podemos ficar dormindo aos pés do Junípero. Há milhares de pessoas esperando por nós. Temos que ter força e vigor para caminhar “os quarenta dias e as quarenta noites“ até chegar ao Monte Horeb, a Montanha do Senhor, pois Este continua a dizer a cada um de nós o mesmo que disse ao profeta Elias: “Levanta, coma, porque tem um longo caminho a percorrer”(Cf. 1R.18,19).
5. É HORA DE DECIDIR- Para se encaminhar, aprofundar e operacionalizar os pontos acima expostos é necessário antes de mais nada definir se o trabalho pastoral paroquial pode ou não pode ser um trabalho dominicano. Um projeto apostólico eficaz da Ordem no Brasil exige que encaremos de frente a questão paróquia. Temos que fazer uma opção clara: ou fazemos um projeto sério de evangelização nas paróquias de acordo com o Carisma da Ordem e, portanto, assumido por toda Província sem preconceitos, ou, então, elaboramos um projeto de entrega paulatina de nossas paróquias aos bispos. Temos que fazer uma opção clara e distinta. A indecisão nos custará caro: “Oxalá fosses frio ou quente! Mas como és morno, nem frio e nem quente, vou vomitar-te”(Ap.3,15b-16).
fr. Eduardo Quirino de Oliveira, op (fr. Bruno)