Carta às Igrejas, fevereiro de 2005.
Jon Sobrino
Tradução: Frei Humberto Pereira de Almeida, OP.

 

O seguimento de D. Oscar Romero
Meditação cristã no 25º aniversário


O 25º aniversário do martírio de D. Romero precisa ser bem celebrado

 

Alguns não o celebrarão, aqueles que o insultaram em vida e celebraram com champanhe o seu assassinato, ainda que agora estejam mais comedidos e se passem como condescendentes e compreensivos cidadãos. E, como são populistas, se necessário, irão a Roma quando o beatificarem, pois percebem que D. Romero é querido por muitos salvadorenhos.

Outros se alegram em celebrar um ano a mais de D. Romero. Lembram-no de coração, participam de Eucaristias, encontros e conferências, exposições e concertos na grande vigília do dia 2 de abril. Pintarão camisetas com a sua fotografia, colocarão um cartaz na sua casa e ouvirão uma palavra pela YSUCA. De longe virão centenas e ao todo serão milhares os que participam do aniversário. E não digamos se aparecer algum sinal de que a beatificação pode estar perto. Mas acima de tudo falta alguma coisa que queremos explicar, lembrando o que aconteceu na morte e ressurreição de Jesus de Nazaré.

Os primeiros cristãos celebravam a sua memória na Eucaristia, entoavam hinos em sua honra, desenvolviam uma teologia cheia de entusiasmo, começaram a chamá-lo de "Senhor", "Filho de Deus", e esperavam a sua breve volta. Mas os cristãos mais clarividentes viram que "só" isto não bastava. Ainda mais, que "só" isto era perigoso. Então apareceu Marcos com o seu Evangelho. Veio perturbar os cristãos demasiados complacentes, e nada digamos dos cristãos que tinham se esquecido de Jesus, e até mesmo o renegavam, como acontecia na comunidade de Corinto, porque tinham encontrado algo de melhor: um espírito aéreo. O Evangelho de Marcos "celebra" Jesus e o chama de "Filho de Deus", mas não coloca a invocação nos lábios de gente piedosa que espera prodígios, mas só nos lábios de um pagão, o centurião romano, e ao pé da cruz. Também o chama de "Messias", mas quando isto acontece Jesus diz ao povo que não o digam a ninguém. Marcos nos diz também que a fé em Jesus não foi nada fácil, nem para os seus familiares, nem para os discípulos - em especial para Pedro - e certamente não o foi para os teólogos e sacerdotes daquele tempo. Por último, o seu Evangelho termina abruptamente em Mc. 16,8: junto ao túmulo as mulheres "tiveram medo e não disseram nada a ninguém". Este final foi tão chocante que, mais tarde, lhe acrescentaram alguns versículos para amortecer o susto.

Por que trazer esta referência a Marcos neste 25º aniversário? Para aprender uma lição importante. Não basta a celebração nem a alegria, ainda que sejam bem-vindas como a brisa de ar fresco em meio a tantos sofrimentos da vida. Nem sequer bastará o aplauso que responderá ao anúncio da sua possível beatificação. Se não basta, o que falta? Voltemos a Marcos. Jesus não está interessado que o chamem de Messias, está sim interessado de uma coisa: o seguimento.

Voltemos a D. Romero. Celebrá-lo significa antes de tudo "seguí-lo". Como fazê-lo? Em primeiro lugar é preciso passar pela mudança - ou conversão - pela qual ele passou. Em segundo lugar é preciso re-fazer a sua vida. Ambas as coisas são difíceis, mas são necessárias para o país e para a Igreja - no que agora vamos nos concentrar - e trazer a salvação. No que se refere à "conversão" baste recordar as seguintes palavras:

"O profeta denuncia também os pecados internos da Igreja. Por que não? Se bispos, papa, sacerdotes, núncios, religiosas, colégios católicos, fomos formados por homens, e nós homens somos pecadores e precisamos que alguém nos sirva de profeta para que nos chame à conversão... Seria muito triste uma Igreja que se sentisse tão dona da verdade que repelisse todos os demais. Uma Igreja que só condena, uma Igreja que só olha os pecados dos outros e não percebe a viga que traz nos seus próprios olhos não é a autêntica Igreja de Cristo" (Homilia de 8 de julho de 1979).

E, alem da conversão, a práxis. Não é o momento de expor em detalhes como deve ser a práxis de uma Igreja fiel a D. Romero, mas podemos mencionar os impulsos de lucidez, ânimo, firmeza, resistência e esperança que ele nos lega.

Como seguidores de D. Romero, é preciso dizer a verdade, não só pregar uma doutrina, ainda que verdadeira. E então a verdade se converte em denúncia profética dos males que existem no país, dando nomes aos que vitimam e às vítimas. Ainda que muitas coisas tenham mudado nestes 25 anos, D. Romero continua nos remetendo para lugares onde campeia o mal:
1) a idolatria do dinheiro, a oligarquia antes agrícola, agora financeira,
2) a idolatria do poder militar, mais latente aqui e mais patente nos Estados Unidos, ao que se deve acrescentar a espantosa violência atual - de 8 a 10 homicídios diários nos últimos tempos,
3) a conivência de alguns partidos políticos com a injustiça e a irresponsabilidade da maioria deles diante da miséria e do sofrimento, ao que se deve acrescentar a corrupção,
4) o imperialismo dos Estados Unidos, no comércio, na nossa política internacional e, sobretudo, nos psêudo-valores que nos impõem: individualismo, êxito, bom viver,
5) a corrupção da administração da justiça, que não esclareceu sequer quem matou D. Romero,
6) os meios de comunicação, com a mentira, as meias verdades, o subterfúgio, conforme os casos,
7) a falsificação da religião, o espiritualismo exagerado que não é a vida segundo o espírito; o individualismo alienante, que não é a apropriação pessoal da fé; o gregarismo que enche os estádios, que não é a comunidade e a repulsa mútua; a infantilização do religioso, que não é simplicidade - como as crianças - diante do mistério de Deus.

É preciso voltar à práxis, à misericórdia, último sinal do nosso ser cristão, e voltar a promover a justiça, a transformação das estruturas. É preciso recuperar a opção pelos pobres, de modo sério, sem restrição, arriscando-nos por ela, lembrando e honrando aqueles que a viveram até o fim: os nossos mártires. É preciso recobrar a parcialidade de Deus e do seu Cristo para com os pobres deste mundo.

É preciso recuperar a evangelização no sentido original que tem em Jesus: o anúncio da boa notícia aos pobres, sem que a novidade nos métodos e na linguagem altere o essencial. É preciso anunciar este Reino com credibilidade, sem pensar que há coisas mais importantes a fazer, algumas delas boas, como a vida sacramental; outras ambíguas, como o sem número de concentrações, festas, jubileus, anos dedicado a alguma coisa, de modo que isto vai se acumulando como se houvesse um horror vacui, um medo de deixar vazios no tempo, o que pode acabar ocultando a boa notícia de Jesus. E outras são perigosas e podem chegar a ser pecaminosas: o proselitismo competitivo, a busca de triunfos, o basear-se em apoios financeiros dos ricos deste mundo.

É preciso recuperar e promover a organização do povo, na sociedade e na Igreja. Não há por que voltar aos anos 80, mas é preciso voltar à instituição fundamental: como Igreja somos antes de tudo comunidade, corpo; e, para exercer influência na sociedade a partir da base, esta comunidade deve estar estruturada, organizada, relacionada com outras forças sociais. É difícil, mas pelo menos é preciso pensar e tentar isto.

Começamos assim, pois com isto nos comprometemos, sendo nisto exímio D. Romero, e não se entende como podemos celebrá-lo sem pelo menos tentarmos estas coisas. Dito com as suas palavras, é preciso provocar vizinhança: "Como gosto de ver nos pobres humildes que as pessoas se ajuntam um por um!" (12 de agosto de 1979). Dignidade: "Vocês são o divino transpassado" (19 de julho d 1977). Alegria: "Com este povo não é difícil ser bom pastor" (18 de novembro de 1979). Esperança: "Estou certo de que tanto sangue derramado e tanta dor não serão em vão" (27 de janeiro de 1980). E tudo isto com humildade: "Eu creio que o bispo sempre tem que aprender do povo" (9 de novembro de 1979) e com credibilidade: "O pastor não pode querer segurança enquanto não der segurança ao seu rebanho" (22 de junho de 1979). É o consolo que nasce da compaixão, a alegria que nasce da vizinhança e a solidariedade, a esperança que nasce da credibilidade.

Todos sabemos quanto isto é difícil, mas, neste aniversário, pelo menos não o declaremos impossível, e procuremos que esta seja a nossa utopia. D. Romero não ofereceu nem oferece receitas, ma oferece sim caminhos, luzes, impulsos.

Muitas outras coisas se podem dizer sobre como celebrar este 25º aniversário. Só queremos acrescentar uma coisa, da qual só podem falar "com autoridade" aqueles que viveram situações como as de D. Romero. Em meados dos anos 80 as mães dos desaparecidos me pediram que celebrasse uma missa para recordar D. Romero. Quando estava para sair da minha casa, uma simples trabalhadora da UCA (Universidade Centro Americana) me disse: "na missa de D. Romero lembre-se do meu filho". O seu filho tinha sido assassinado pelos corpos de segurança. Pensar que ele estava com D. Romero era o seu maior consolo.

Não sabemos o que acontecerá nos próximos 25 anos, mas hoje há muita gente que no dia 24 de março se lembra dos seus filhos e filhas, esposos, pais, irmãos e irmãs que também foram assassinados. E pedem que D. Romero agora cuide deles. Com este D. Romero fala-se como se fala com um pai. Talvez lhe pedem favores, milagres, mas penso que não o fazem porque vêm em D. Romero um santo "milagroso", com poder, mas porque vêem nele um homem bom, alguém que lhes quer de verdade. Continua sendo para eles boa notícia. Isto acontece "no escondido", mas é o mais importante, eu penso, neste 25º aniversário.

 

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