Um novo cenário eleitoral
Frei Paulo Cantanheide

Desde que o Brasil voltou a realizar eleições diretas para presidente da república, os processos eleitorais se desenvolveram através de uma correlação de força envolvendo os seguintes atores sociais: A elite econômica do país; os meios de comunicação social, normalmente controlados por esse primeiro grupo e as camadas populares da sociedade brasileira.

Grosso modo podemos dizer que a relação se desenvolve dentro de um ciclo vicioso, onde a elite econômica define o candidato de seu interesse e a mídia, sobretudo a televisão, se encarrega de conduzir a grande massa de eleitores a fim de eleger o candidato que representa a minoria mais rica do país.

Tivemos oportunidade de perceber a funcionalidade desse sistema até mesmo nas eleições de 2002. Não nos iludamos em pensar que naquela ocasião Lula tenha sido eleito sem o aval das elites dominantes do País. Mas se Lula chegou ao poder pela primeira vez com o apoio dos poderosos e da mídia! Por que sofreu, nessa última eleição, um verdadeiro ataque desses grupos?

Acontece que Lula, mesmo sem conseguir esconder o seu comprometimento com um modelo econômico favorável aos planos da elite econômica do país, teve uma atenção especial para com os mais pobres da população ao realizar um projeto de assistência social amplo e organizado como nunca se presenciara na história do Brasil.

Programas como, Bolsa família, Prouni e Luz para todos, embora duramente criticados pelos teóricos do desenvolvimento econômico e social por ser considerados medidas paliativas, conseguiram distribuir renda, amenizar a fome e diminuir a evasão escolar. Além disso, a economia foi conduzida de forma que os assalariados conseguiram mais poder de compra.

Apesar de todos os deslizes cometidos pelo partido do presidente, o governo teve a habilidade de não confrontar os milionários do país através de uma mudança radical na matriz econômica, ao mesmo tempo em que conseguiu estancar o acelerado processo de privatização das estatais, realizar uma política externa emancipatória e apresentas melhorias visíveis nas condições de vida das camadas mais pobres da população.

O resultado de disso foi uma verdadeira inversão no cenário eleitoral nesse ano de 2006. Depois das diretas, pela primeira vez nós vimos a mídia apontar um candidato e o povo escolher outro. Seria exagero inferir que houve no Brasil um confronto de classes pela via eleitoral, mas não resta dúvida que, sobretudo no 1º turno, o mapa eleitoral refletiu a divergência de interesses entre os milionários e as camadas populares do país.

Embora o Governo Lula tenha passado longe da implantação de um projeto popular capaz de mudar a história do país, sua sensibilidade social a e eficácia de alguns de seus programas podem ter sido o ponta-pé inicial para o povo brasileiro perceber que seus interesses divergem dos interesses da elite e buscar o seu protagonismo político.