| Os que se preocupam com o clima do planeta deveriam se dedicar a influenciar
seus governos. Da Amazônia nós estamos cuidando
COM FREQÜÊNCIA vemos circularem notícias sobre interesses
de pessoas, entidades ou mesmo governos estrangeiros com relação
à região amazônica. Recentemente, surgiram no exterior
iniciativas com o objetivo de adquirir terras na Amazônia para fins
de conservação ambiental ligadas à preocupação
com o fenômeno da mudança do clima e ao possível papel
do desmatamento nesse processo.
São propostas que desconhecem a realidade da floresta amazônica.
Ignoram também importantes dados científicos. A mudança
do clima é um problema real ao qual o Brasil atribui grande importância.
Há consenso mundial de que o fenômeno está sendo acelerado
pela ação humana. É um processo cumulativo, resultado
da concentração progressiva de gases de efeito estufa na
atmosfera nos últimos 150 anos. Assim, focar a atenção
especialmente nas atuais emissões é errado e injusto. Alguns
dos atuais emissores -sobretudo os países emergentes- têm
pouca ou nenhuma responsabilidade pelo aquecimento global, cujos efeitos
começamos a sentir.
A causa principal da mudança do clima é conhecida: pelo
menos 80% do problema tem origem na queima de combustíveis fósseis
-especialmente carvão e petróleo- a partir de meados do
século 19. Apenas pequena parcela resulta das mudanças no
uso da terra, incluindo o desmatamento.
O desmatamento atual em escala global é preocupante por várias
razões, mas o foco do combate à mudança do clima
deve ser a alteração da matriz energética e o uso
mais intensivo de energias limpas. A Convenção do Clima
e seu Protocolo de Kyoto são claros: àqueles que causaram
o problema (os países industrializados) cabem metas mandatórias
de reduções e a obrigação de agir primeiro.
Embora não tenha metas mandatórias de redução
por pouco ter contribuído para o problema, o Brasil está
fazendo sua parte. Possuímos uma das matrizes energéticas
mais limpas do mundo. Nossos programas de biocombustível são
exemplo para outros países. Contribuímos, dessa forma, para
o desenvolvimento sustentável da sociedade brasileira e para a
redução global das emissões de gases de efeito estufa.
O Brasil está, ainda, implementando uma política integrada
de combate ao desmatamento. Trata-se de esforço multissetorial
e de longo prazo, com ações de valorização
da floresta em pé e de apoio ao desenvolvimento socioeconômico
das comunidades que dela dependem. Nos últimos anos, conseguimos
importante redução das taxas de desmatamento. Em 2004-2005,
a redução confirmada foi de 32%, ao que se somam, segundo
dados preliminares, mais 11% no período 2005-2006. São resultados
significativos, mas os esforços para uma redução
permanente do desmatamento devem continuar.
O manejo sustentável de florestas é, em todo o mundo, um
campo propício à cooperação, por meio do intercâmbio
de experiências e do auxílio na capacitação
técnica. Estamos abertos a essa cooperação, sempre
no estrito respeito às nossas leis e à nossa soberania.
O Brasil participa ativamente dos debates internacionais sobre florestas.
No âmbito da Convenção do Clima, apresentaremos, em
novembro próximo, na Conferência de Nairóbi, proposta
que visa promover incentivos aos esforços nacionais voluntários
de redução das taxas de desmatamento. Acreditamos que essa
é uma forma adequada de os países desenvolvidos apoiarem
a conservação das florestas tropicais.
A proposta é mais uma contribuição do Brasil para
o esforço comum de redução global de emissões
de gases de efeito estufa. A sociedade brasileira não aceita mais
os padrões insustentáveis de desenvolvimento que levaram,
em todo o mundo, a perdas ambientais irreparáveis. O Brasil espera
que os países industrializados, responsáveis pelo problema,
cumpram suas obrigações de redução de emissões.
Aqueles indivíduos bem-intencionados que, com razão, se
preocupam com o clima do planeta deveriam dedicar-se a influenciar seus
próprios governos no sentido da mudança de padrões
insustentáveis de produção e consumo e da utilização
de energias renováveis. Nessa área, o Brasil tem muito a
oferecer em conhecimento e tecnologia.
Da Amazônia nós estamos cuidando de acordo com modelos de
desenvolvimento baseados em princípios de sustentabilidade definidos
pela sociedade brasileira. A Amazônia é um patrimônio
do povo brasileiro, e não está à venda.
________________________________________
CELSO AMORIM, 64, diplomata, doutor em ciências políticas
pela London School of Economics (Inglaterra), é o ministro das
Relações Exteriores. SERGIO MACHADO REZENDE, doutor em física
pelo MIT (EUA), é o ministro da Ciência e Tecnologia. MARINA
SILVA, 48, historiadora, senadora pelo PT-AC, é a ministra do Meio
Ambiente.
|