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[publicado em
"Contexto Latinoamericano. Revista de Análisis Político",
No. 1, setembro-dezembro de 2006, editora Ocean Sur, México.
Artigo enviado em 15/07/2006]
América
Latina: integração e lutas de emancipação
por Gustavo Codas (1)
A América Latina entrou em um novo período político,
com grandes potencialidades emancipadoras, cujos contornos e desenvolvimento
ainda estão em construção e disputa. As dificuldades
são imensas, mas trata-se de uma oportunidade histórica
única para conquistar a nossa segunda e verdadeira independência.
Nesse contexto, a questão da integração é
chave para definir o rumo político a ser tomado pela região.
O objetivo deste artigo é sistematizar alguns elementos desse novo
período político, analisar as dificuldades e potencialidades
da atual conjuntura regional, e colocar alguns desafios que as esquerdas
devem enfrentar - em particular em matéria de integração
regional - para fazer avançar as lutas emancipatórias na
América Latina.
Quatro processos
Correndo os riscos intrínsecos a toda comparação
histórica, mas com a intenção de ressaltar a importância
do atual período político, podemos assinalar - como outros
autores já fizeram - que esta é a quarta vez em que se vive
uma onda emancipadora em nossa região nos últimos duzentos
anos.
É óbvio que não foram processos homogêneos.
No entanto, tiveram como denominador comum seu caráter de alcance
regional e o potencial de ruptura com a ordem colonial e imperialista
apresentado por todos eles. O primeiro foi registrado quando da grande
onda de lutas pela independência, que teve seu epicentro entre os
anos de 1810 e 1830. Conquistamos a independência formal da Espanha
e de Portugal; não rompemos, porém, as correntes da dependência
econômica que nos prendiam às outras metrópoles que
em breve se transformariam no imperialismo hegemônico. O segundo
expressou-se na ascensão do nacionalismo nos anos 1930-40. Este
tentou criar as bases materiais para a independência econômica,
mas faltou uma vontade política que a levasse adiante até
o fim. Assim, passada a sua primeira fase, tornou-se um fracassado projeto
que, sem contestar a dependência, pretendia impulsionar um desenvolvimento
associado ao imperialismo. A terceira onda foi inaugurada pela revolução
cubana de 1959. Teve um tremendo impacto político-ideológico
sobre a região e gerou novas condições para realizar
a tarefa proposta por Mariátegui (no Peru, em 1928) de pensar um
socialismo indo-americano como criação heróica e
não como simples cópia de doutrinas importadas das metrópoles.
Não conseguiu escapar, porém, do feroz cerco de ditaduras
militares que o imperialismo americano e as oligarquias locais a ele aliadas
impuseram à região nas décadas que se seguiram (2).
Cada um desses processos teve suas conquistas, suas limitações
e suas derrotas. Mas o que o atual processo apresenta de novo é
que ele consegue reunir, ao mesmo tempo, condições econômicas,
políticas e ideológicas para gerar um projeto de emancipação
de escala regional. Para discutir como alcançá-lo, vamos
nos deter primeiramente na análise dos antecedentes do atual período,
o que nos dará uma visão sobre as condições
sob as quais devemos operar.
Neoliberalismo, um projeto contestado
A meados da década passada, o discurso dominante era o do "fim
da história" e de que "não há alternativas".
Naquele então, nosso continente estava coberto de governos neoliberais
obedientes ao de Washington; e Cuba, solitária, atravessava o deserto
do "período especial".
O neoliberalismo tivera entre suas pioneiras duas ditaduras militares
sangrentas, a chilena (1973-1989) e a argentina (1976-1983), mas tornou-se
projeto dominante quando, nos anos 1980, foi assumido pelo imperialismo
norte-americano (com o governo Reagan) como programa a ser implementado
mundialmente.
As crises do programa social-democrata europeu a partir do final dos anos
1970 e do socialismo burocratizado na década de 1980, assim como
o fim da União Soviética em 1991, abriram espaço
para que o projeto neoliberal se tornasse ideologicamente hegemônico
nesse período. Ao mesmo tempo, o "fim da guerra fria"
alimentou, em alguns círculos, a ilusão de um mundo sem
conflitos que não se verificou: surgiu uma ordem mundial mais injusta,
mais instável e mais violenta que a anterior, regida pela unipolaridade
do imperialismo norte-americano.
Entendo que ainda nos encontramos sob o peso dessas duas marcas no nível
mundial, de imposição do programa neoliberal e da unilateralidade
da atuação do imperialismo norte-americano. Entretanto,
trata-se de uma ordem que apresenta rachaduras (ainda que sejam rachaduras
regionais com características e potencialidades políticas
muito heterogêneas). De todas elas, a que mais elementos emancipatórios
incorpora é precisamente a que vivenciamos na América Latina.
Em nossa região, a conjuntura deu uma guinada. Verificamos um verdadeiro
despertar dos povos e o neoliberalismo é, por aqui, um projeto
posto em xeque. Poderíamos estabelecer o inicio da linha do tempo
da conjuntura atual em diversos pontos. E, certamente, a depender da localização
geográfica de quem observa, haveria percepções diferentes
de acordo com as experiências nacionais. O antecedente mais distante
poderia ser o Caracazo de 1989 na Venezuela, primeira revolta massiva
contra um ajuste neoliberal, sangrentamente reprimida pelo governo do
então presidente Carlos Andrés Pérez. Entre os antecedentes
estaria também, sem dúvida, o levantamento indígena
zapatista mexicano contra o TLC (Tratado de Livre Comércio) com
os Estados Unidos e Canadá em janeiro de 1994. Seria, porém,
a rebelião popular em Cochabamba, Bolívia, em 2000, contra
a privatização da água, a que mais claramente poria
em evidência que já se tinha alcançado uma nova conjuntura,
onde a pressão popular era capaz de bloquear a aplicação
do programa neoliberal. Nessa cronologia, deveríamos acrescentar
também os momentos nos quais, desde o final da década passada,
movimentos populares expulsaram presidentes neoliberais no Equador, Paraguai,
Argentina e Bolívia. E quando os povos, através de seu voto,
procuraram alternativas, começando pelas eleições
venezuelanas de 1998, quando Hugo Chávez foi eleito presidente,
inaugurando uma série que cresceu expressivamente nos últimos
anos com o Brasil, a Argentina e o Uruguai, e teve seu ponto alto com
a recente eleição de Evo Morales na Bolívia (3).
Contudo, o fato de haver questionamento e oposição ao neoliberalismo
não quer dizer ainda que outro projeto já esteja claramente
lançado. Significa, sim, que o neoliberalismo é um programa
que se esgotou, porque não oferece mais perspectivas de governabilidade
(pelo menos não no marco democrático), e que está
aberta a temporada de formulação, construção
e aplicação de alternativas. Por outro lado, não
existe um programa alternativo já pronto e válido para todos
os casos. Por último, o desenlace da conjuntura vai depender da
constituição de vontades políticas capazes de impulsionar
cada país em particular e a região como um todo na direção
de um projeto de superação do neoliberalismo; e só
serão "capazes" se construírem maiorias políticas
(portanto, o tema chave é o da "hegemonia" nos processos
nacionais).
Isso não quer dizer, porém, que no processo desse parto
não estejam já presentes indicações do sentido
geral das mudanças. Por exemplo, não é um detalhe
menor que na Cúpula de Presidentes de Mar del Plata, em novembro
de 2005, o próprio presidente Bush, com ajuda de seus testas-de-ferro
regionais (com o mexicano Vicente Fox na dianteira), não tenha
conseguido forçar a retomada das negociações da ALCA
(Área de Livre Comércio das Américas), bloqueada
pela oposição dos governos da Venezuela e do Mercosul. Leve-se
em consideração que a ALCA era, desde os tempos do auge
neoliberal, a principal estratégia imperialista para completar
sua dominação sobre a região. Pelas contas de Clinton
primeiro, e Bush depois, o ano de 2005 seria com a ALCA para o continente
todo (excluindo Cuba) equivalente ao de 1994 com o NAFTA na América
do Norte. Não foi, e não há perspectiva de poder
retomar o projeto no curto prazo.
O que restou ao governo norte-americano é pressionar os governos
nacionais mais suscetíveis à sua coerção -
Chile, Colômbia, Peru, países da América Central e
República Dominicana - para impor TLCs bilaterais. Isso, que é
um avanço do imperialismo norte-americano a través das partes
de menor resistência (graças a presença de governos
entreguistas) é também sua confissão de derrota em
relação ao todo.
Império atolado
Existem muitos indícios de que o auge do imperialismo norte-americano
já passou. Seu principal argumento - sua superioridade militar
convencional - ficou atolado no Iraque. Suas políticas para o mundo
árabe e muçulmano fracassaram ao não estabilizar
um arco de aliados estratégicos; pelo contrário, introduziram
novos elementos de instabilidade para seus antigos aliados. Tendo entrado
militarmente de forma maciça, não tem como sair tão
cedo de lá e - como tudo indica - não conta com forças
suficientes para duas frentes de conflitos agudos ao mesmo tempo.
O unilateralismo de sua política internacional despertou o "nacionalismo"
em outras potências capitalistas que, sem capacidade de enfrentá-lo
militarmente, se sentem atraídas pela idéia de procurar
um novo mapa geopolítico - ousadia facilitada pela ausência
do "perigo comunista".
Sua economia (tomada individualmente) continua sendo a principal do planeta,
mas em declino e com problemas crescentes, cada vez mais dependente do
financiamento do resto do mundo, em particular da China.
Ao mesmo tempo, vemos que voltam a crescer movimentos populares de contestação
dentro dos Estados Unidos. O caso mais evidente é o das gigantescas
manifestações promovidas por imigrantes (especialmente latinos)
em defesa de seus direitos no passado 1º de maio de 2006. Mas também
têm seu impacto as coalizões contra a guerra e as que impulsionam
campanhas contra as políticas das corporações multinacionais
norte-americanas.
É graças a esse quadro conjuntural que a América
Latina não é hoje a primeira prioridade estratégica
do imperialismo norte-americano. Também foi em outras conjunturas
como esta, em que as cordas com as quais o imperialismo amarra a periferia
se soltaram um pouco, quando houve maiores espaços políticos
para projetos emancipatórios. Mas isso não significa que
em termos geopolíticos nossa região tenha perdido seu caráter
de área natural de exercício da hegemonia norte-americana
(razão pela qual não se deva esperar ajuda de outras potências).
Esquerda, crise e reorganização
É importante assinalar que as esquerdas (sociais e partidárias)
chegam nessa nova conjuntura depois de atravessar uma forte crise política
e ideológica na região (e no mundo). Ao comparar o cenário
de meados dos anos 1980 com a primeira parte da década seguinte,
observam-se dramáticas transformações no mapa das
esquerdas latino-americanas, com deserções importantes,
com a dissolução de organizações políticas
que tiveram peso, com a perda de referências programáticas,
etc., ao mesmo tempo em que as forças conservadoras ocupavam sua
hegemonia ideológica e política neoliberal na maioria dos
países.
No entanto, a crise das esquerdas de quinze anos atrás teve um
inesperado resultado positivo: desfez as fronteiras internas (muitas vezes
sectárias) entre tradições, partidos e facções
estabelecidas pelas experiências do século XX. Esse foi o
novo terreno fértil para as amplas convergências populares
ocorridas no período seguinte, de retomada das mobilizações
populares e contestação da legitimidade do projeto neoliberal.
Uma de suas características, que além de diferenciá-la
de outros momentos históricos lhe confere potencialidades (embora
também dificuldades) que ainda não é possível
medir, é que o atual processo acontece sem que haja previamente
alguma hegemonia político-ideológica instalada ou em vias
de se instalar no cenário político popular de nosso continente.
Isso se deve, provavelmente, a que ainda estamos num período de
reconstrução das esquerdas sociais e partidárias
depois da queda do "socialismo real", que, junto com o vendaval
neoliberal, uns quinze anos atrás, teve um tremendo impacto sobre
a configuração das forças progressistas. Mas tudo
indica que faremos deste traço atual um princípio para que
finalmente possamos construir a libertação dos povos pensando
buscando a unidade mas recusando hegemonismos.
Uma intensa atividade que partia dos movimentos sociais (ou da "sociedade
civil", se se preferir) abonou esta nova fase. Entre os antecedentes
mais importantes, seria importante citar a campanha continental contra
os "500 anos de colonialismo" em 1992. Nela, a convergência
entre movimentos indígenas, camponeses, de bairros, de mulheres,
da cultura e comunicadores populares, etc., apontava para a conformação
de novos atores políticos.
Articulações continentais e mundiais surgiram ou se fortaleceram
nesse processo na nova conjuntura que se delineava em nossa região:
a Via Campesina e a Coordenação Latino-americana de Organizações
do Campo (CLOC); os encontros de povos indígenas que resultaram
em coordenações (amazônica, andina, entre outras),
Jubileu Sul Américas e "50 anos (de FMI/Banco Mundial) bastam";
a Marcha Mundial das Mulheres e a Rede Mulheres Transformando a Economia
(REMTE); a Frente Continental de Organizações Comunitárias
(FCOC); a Aliança Social Continental (ASC), a Campanha Continental
contra a ALCA e os Encontros Hemisféricos de Luta contra a ALCA;
a Convergência de Movimentos Populares (COMPA); a Assembléia
dos Povos do Caribe (APC); o Fórum Social Mundial e o Fórum
Social Américas; o Fórum Sindical das Américas (primeira
experiência de espaço sindical amplamente unitário
desde a Segunda Guerra Mundial), entre várias outras.
Diferentemente de outros continentes, e de outros momentos em nossa região,
hoje temos nas Américas espaços muito amplos de convergência,
articulação e construção de lutas comuns.
São ferramentas fundamentais para que, para além das diferenças
nacionais ou setoriais que existam, possamos trabalhar em perspectivas
cada vez mais unitárias de superação de nossa herança
colonial, de nossa dependência em relação ao imperialismo
e das desigualdades sociais, étnicas e regionais que marcam a América
Latina.
Necessidade e possibilidade da integração
Que este processo de rearticulação das esquerdas tem tido
um balanço globalmente positivo - ainda que com grandes heterogeneidades
- é inegável. A resistência deu seus frutos, como
demonstra o fato de a negociação da ALCA estar paralisada
e de terem surgido em diversos países forças políticas
críticas do neoliberalismo e do imperialismo norte-americano com
capacidade hegemônica (e que são governo em vários
casos).
Um processo de emancipação não depende, porém,
apenas da construção de forças sociais e políticas
com capacidade hegemônica; depende também de que haja uma
base material que o possibilite.
Até 1991, as revoluções ocorridas no século
XX posteriormente à soviética - independentemente do maior
ou menor entusiasmo em relação a esta - contavam com a retaguarda
estratégica da URSS, ou seja, dispunham, fora do circuito econômico
dominado pelo imperialismo, de um mercado para suas exportações,
uma fonte de aprovisionamento dos produtos que faltassem, uma plataforma
de tecnologias de ponta à qual podiam ter acesso, etc. E como o
mundo estava dividido pela confrontação URSS-EUA, havia
interesse por parte do governo soviético de ampliar suas áreas
de influência. Mas, diante do fato de que a URSS tinha alcançado
essa condição advinda da tragédia da opção
stalinista nas décadas de 1920-30, era necessário se equilibrar
entre utilizar essa retaguarda estratégica e não perder
o caráter do processo revolucionário, dura prova pela qual
passaria a experiência cubana.
A questão é: desaparecida a URSS, qual seria a atual retaguarda
estratégica? Se o processo emancipatório tivesse lugar num
país periférico, haveria condições de manter
e aprofundar seu rumo revolucionário inserido num mercado mundial
dominado pelo imperialismo? Nem o pensamento revolucionário (desde
Marx e Engels a meados do século XIX) nem o pensamento e a ação
estratégica do imperialismo (desde 1917) admitiram jamais tal hipótese.
No caso da nossa região, porém, há uma brecha que
poderia ser utilizada. Produto da combinação da existência
de amplas reservas de recursos naturais de todo tipo e do esforço
de industrialização nas fases anteriores ao neoliberalismo,
a América Latina tem um potencial regional de construir capacidades
autônomas diante da pressão do capital imperialista. Mas
não há nenhum país que possa fazê-lo isoladamente,
devendo constituir um projeto comum a vários.
A integração regional é, pois, uma necessidade para
os projetos emancipatórios, mas é também uma possibilidade
concreta, graças ao surgimento, consolidação e crescimento
das forças que mencionávamos acima.
As dificuldades residem, não obstante, no caráter inédito
de um processo assim. Até agora, a integração regional
sempre foi focalizada e entendida dentro da área de influência
- e como parte da influência - de uma potência hegemônica.
Mesmo o processo que resultou na União Européia deve ser
entendido como parte da estratégia dos EUA de contenção
da URSS.
Já um processo de integração regional sem a liderança
de uma potência hegemônica e, pior ainda, contra as pretensões
hegemônicas da única atual superpotência (EUA), não
conta com uma doutrina que lhe dê antecedentes e consistência
programática: será necessário elaborá-la à
medida que se for avançando. Essa é a tarefa dramática
que se impõe para as esquerdas latino-americanas como resultado
dos êxitos colhidos na fase anterior.
Agendas
1. Se este é o quarto momento histórico da longa marcha
pela emancipação indo-americana, será importante
sistematizar as propostas e as lições dos três esforços
anteriores. Isso incluirá, certamente, o resgate crítico
dos debates propostos por Simón Bolívar (a cujas iniciativas
os Estados Unidos responderam com a Doutrina Monroe), José Carlos
Mariátegui (em diálogo e polêmica com Haya dela Torre),
pensadores da CEPAL (como Raúl Prebish, Celso Furtado, Aníbal
Pinto e Maria C. Tavares), Ernesto Che Guervara, entre outros.
2. Qual deverá ser a identidade política desse amplo processo?
Identidade ou identidades? O nacionalismo nos países periféricos
ou dependentes tem um caráter revolucionário quando é
antiimperialismo (4). Mas, quando se orienta a disputas entre países
da periferia, torna-se um patrioterismo da pior espécie, facilmente
manipulado por interesses imperialistas. Existem na região conflitos
latentes entre países que, se guiados por essa dinâmica,
levariam à desagregação política e ao fracasso
da idéia de que há alternativas à hegemonia imperialista
na América Latina. Para superar essa dificuldade, o presidente
Hugo Chávez tem proposto o "bolivarianismo" e, de fato,
o legado de Bolívar se mostra de grande atualidade para as tarefas
que estão hoje colocadas. No entanto, é necessário
se perguntar - partindo inclusive das experiências do século
passado - sobre a pertinência da busca de uma só identidade
política, mesmo que ideologicamente ampla. Parece-me que o mais
correto será buscar a convergência a partir de diversas identidades,
desde que orientadas pelo objetivo estratégico comum de uma construção
contra-hegemônica na região.
3. Quais devem ser os conteúdos desse processo? Ou seja, qual seria
o seu "programa"? Como dizíamos acima, ele não
está pronto: é e será um processo. E se admitirmos
uma pluralidade de identidades convergentes, devemos considerar inclusive
uma pluralidade de programas. Não obstante, há algumas diretrizes
que podemos afirmar desde já. É lógico e compreensível
que cada governo inicie o processo utilizando os meios que sua economia
nacional possui no momento. Entretanto, se ficarmos apenas nisso, será
uma mera reiteração do momento atual (de dependência
e subdesenvolvimento), que justamente pretendemos superar. Por isso, é
fundamental vincular os debates sobre a superação do neoliberalismo
dentro dos nossos países ao processo de integração
regional. Por outro lado, as nossas economias foram construídas
historicamente para servir as metrópoles, possuem inclusive características
de unidades competidoras entre si por mercados do capitalismo central
e por capitais imperialistas, nos mesmos ramos. Um projeto de integração
deveria, assim, significar um amplo processo de redefinição
de nossas estruturas produtivas, das infra-estruturas de transporte e
comunicação, das matrizes energéticas, etc., para
fazer da região uma unidade econômica comum voltada para
as necessidades de seus povos. Por último, não há
entre nossos países um que seja capaz de liderar os demais, porque
nenhum tem capacidades hegemônicas regionais; isso significa que,
no processo, ou se constitui uma liderança compartilhada entre
vários países ou não haverá processo regional.
(Este último é um desafio particularmente importante e estimulante,
já que o pensamento estratégico convencional não
prevê esta hipótese: deverá ser uma criação
heróica de nossos povos).
4. Como já destacamos, este processo não começou
agora nem caiu do céu. É resultado de lentos e persistentes
esforços de construção de atores políticos
e sociais, nos nossos países e no nível regional. Por isso,
como método, é fundamental partir daquilo que viemos construindo
em termos de espaços de convergência e de capacidade de mobilização.
Nesse sentido, o seguinte passo - definido no Encontro Hemisférico
de Luta contra a ALCA realizado em Havana, Cuba, em abril de 2006 - aponta
para a Cúpula Social pela Integração a se realizar
em Santa Cruz, Bolívia, em dezembro de 2006. Esta será concomitante
à reunião de presidentes da Comunidade Sul-americana de
Nações, que, sob a presidência do governo boliviano,
discutirá os rumos da integração regional. A Cúpula
Social será uma oportunidade para avançar na convergência
de uma pauta de propostas para caminhar na direção daquela
construção regional e para dialogar com outros atores desse
processo (governos abertos ao diálogo com os movimentos sociais,
partidos políticos progressistas, etc.).
Notas
(1) Gustavo Codas é jornalista e economista paraguaio residente
em São Paulo, Brasil, desde 1983.
(2) Mariátegui, José Carlos. "Aniversario y Balance"
(1928), em Textos Básicos (Seleção, prólogo
e notas de Aníbal Quijano). México, FCE, 1991, pág.
125. A revolução cubana fermentou também outra tese
mariateguista: de que o antiimperialismo, para ser conseqüente, deve
ter uma perspectiva socialista. Ver na mesma antologia, "Punto de
vista antiimperialista" (1929), pág. 203.
(3) No momento de escrever este artigo, o governo de direita do PAN no
México fraudava as eleições para evitar a vitória
do candidato de centro-esquerda López Obrador do PRD.
(4) Diferente do nacionalismo nos países imperialistas, que, de
modo geral, é um componente de ideologias reacionárias.
Referências
Lander, Edgardo. ¨¿Modelos alternativos de integración?
Proyectos neoliberales y resistencias populares¨. Revista OSAL, núm.
15, janeiro. Buenos Aires, CLACSO, 2005.
Mariátegui, José Carlos. Textos Básicos (Seleção,
prólogo e notas de Aníbal Quijano). México, FCE,
1991.
Moniz B., Luiz A. ¨¿Qué quiere Brasil con Sudamérica?¨(entrevista).
Montevideo, La Onda Digital, 29 de maio de 2006. www.uruguay2030.com/LaOnda/LaOnda/
Pinheiro G., Samuel. Desafio brasileiro na era dos gigantes. Rio de Janeiro,
Contraponto, 2005.
Ver também o debate realizado sobre o tema da integração
regional pela Agência Carta Maior (e transmitido pela TV web Carta
Maior) em 3 de julho de 2006 em São Paulo, Brasil, entre o cientista
político José Luis Fiori, os economistas Luiz Gonzaga Belluzo
e Paulo Nogueira Batista Jr. e o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães
(secretário geral do Ministério das Relações
Exteriores do Brasil) em www.agenciacartamaior.com.br.
Consultar igualmente os resultados dos Encontros Hemisféricos em
Havana e outros documentos dos movimentos sociais da região no
site da Aliança Social Continental www.asc-hsa.org e no portal
www.movimientos.org.
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