Homilia

  • Se a política está doente, vamos evangelizá-la!

     

    Quando escutamos, na primeira leitura, São Paulo conclamar a comunidade de Éfeso à mansidão e à humildade, suportando-os mutuamente em vista da unidade, podemos fazer uma leitura intimista e subjetivista da experiência cristã. Porém, quando a construção da unidade passa da retórica religiosa para a vida prática, inevitavelmente se enfrenta o desconforto que acontece no confronto com o diferente.

    Refletir sobre a vocação do apóstolo Mateus, é contemplar a difícil tarefa da construção da unidade e da universalização da mensagem cristã; o que não deve ser confundido com projeto de expansão e hegemonia de nenhuma igreja. Trata-se de universalizar a experiência do Reino de Deus enquanto atitude de generosidade, solidariedade e compromisso com a justiça no mundo.

    O seguimento de Jesus é para todos, independentemente de posição social, etnia, orientação sexual e religião. O próprio São Paulo na carta aos Gálatas proclama: “Não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (3, 28). O discurso paulino acima não implica perda da própria identidade, mas adesão a um projeto de solidariedade humana no qual a diferença não serve de justificativa para opressão e discriminação.

    Não importa o que a pessoa foi ou fez antes de conhecer a mensagem libertadora de Jesus, mas o que ela vai se tornar depois que a conhecer. O exercício do discipulado nos convida a ser facilitadores desse processo de mudança e conversão na vida das pessoas, para isso, precisamos acreditar na capacidade de superação do outro e ao mesmo tempo sermos capazes de superar os nossos próprios preconceito. Desse modo, não raras vezes o trabalho evangelizador exige que enfrentemos momentos de tensão, sob pena do Reino de Deus não acontecer entre nós devido aos nossos pecados e os pecados dos outros.        

    Em todo o Evangelho de Mateus presenciamos uma Tensão entre as novidades trazidas por Jesus e os costumes da tradição judaica. Esta relação se torna explicita em metáforas como: “não colocar vinho novo em odres velhos e não colocar um remendo novo em uma roupa velha” (MT 9, 16-17)

    A própria escolha de Mateus como discípulo de Jesus ocorre em meio à uma situação de aparente controvérsia, pois para os Judeus soava como um escândalo um líder religioso se aproximar dos cobradores de impostos. Além de estar a serviço do Império Romano, que oprimia o povo, os cobradores de impostos tinham fama de ladrões, usurpadores e corruptos.

    Percebe-se, portanto, que subjacente à história da vocação de Mateus está colocado um problema que passa pela relação sócioreligiosa ou de Fé e Política. Fica evidente no discurso de Jesus que a corrupção presente na vida de Mateus é uma doença que precisa de remédio. Em outras palavras, para seguir Jesus ele precisava assumir uma nova postura na vida.

                A história da vocação de Mateus tem muito a dizer à atual conjuntura política e religiosa. Atualmente a figura do cobrador de imposto corrupto, apresentada no Evangelho, se expressa não apenas na pesada carga tributária imputada aos consumidores, como nos sonegadores de impostos e nos que enviam dinheiro, oriundos dos esquemas de corrupção política, para o exterior.

                Essa situação se torna mais grave e contraditória quando lideranças religiosas se aproximam de corruptos e corruptores do meio político brasileiro, não para produzir uma mudança de postura como Jesus propôs a Mateus, mas antes com o intuito de tirar proveito econômico para seus empreendimentos religiosos. A recente deposição do ex-presidente da câmara dos deputados federais, acusado de movimentar contas no exterior com dinheiro de origem ilegal, se torna um caso emblemático, uma vez que o referido parlamentar está acercado de lideranças religiosas e não poucas vezes os meios de comunicações se referem a ele como um homem de religião.

                Diante do atual senário político brasileiro somos tentados a lavar as mãos ou nutrir um sentimento de ojeriza frente a tudo que se refere à política partidária. Porém, essa não deve ser a atitude do cristão. Se o meio político esta doente, vamos evangelizá-lo.         

     

    fr. Paulo, OP.

     

     

  • REFLEXÃO HOMILÉTICA PARA O 25o DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano C)

    18 de setembro do ano do Senhor de 2016

     

     

    MATEUS DOMINGUES DA SILVA OP

    E o senhor elogiou o administrador desonesto,

    porque ele agiu com esperteza.

    Com efeito, os filhos deste mundo são mais espertos

    em seus negócios do que os

    filhos da luz. (Lc 16, 8).  

     

      

     

                A riqueza de Deus não é como a riqueza dos homens; ela não é uma propriedade privada; em Deus não há – assim como nem de Deus deriva – nenhuma propriedade privada... Portanto, Deus não pode ser roubado nem chantageado, Deus é livre, Deus só sabe amar. Todos têm o direito a Deus, mesmo os que seguem outras denominações cristãs ou os adeptos das mais diversas religiões não-cristãs ou aqueles sem nenhuma religião e que consideramos muitas vezes como administradores injustos dos “bens” de Deus e da graça divina. Quem somos para decidir dessa maneira? Com que direito?

               

                Do relato evangélico proclamado hoje (Lc 16, 1-13), Jesus nos ensina que seu discípulo não pode ter medo; os escrúpulos e o medo podem se tornar barreiras instransponíveis à vida na luz que o próprio Jesus e seu Evangelho nos oferecem para nossa iluminação. O senhor da parábola elogiou seu administrador desonesto, não pela sua desonestidade, mas por sua habilidade e por não ter medo de ser o que é e por não ter escrúpulos em agir: “com efeito, os filhos deste mundo são mais espertos em seus negócios que os filhos da luz” (Lc 16, 8b). Os escrúpulos são, quase sempre, obstáculos desnecessários e perigosos. Não se pode ter medo de ser aquilo que é nem medo para agir de acordo com a consciência, não havendo razão para lutar contra a realidade. O medo paralisa, desespera, sufoca a esperança. O medo é desejo: desejo de fracasso, desejo de ruína, desejo de morte.

     

                A seguir, em uma sentença enigmática, de difícil compreensão, Jesus convida seus discípulos a seguirem o dinheiro para seguir Deus: “Eu vos digo: usem o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas.” (Lc 16, 9). O que Jesus quer dizer? Nessa passagem extremamente difícil, talvez seja melhor aguardar uma segunda sentença para compreender a primeira: “Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará um e amará o outro ou se apegará a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro.” (Lc 16, 13). Ou, como escreveu Jerônimo (347-420) em seu Comentário à profecia de Habacuque [Hab 2,3] (Migne PL vol. 25, col. 1316): “Todo homem rico é, ou injusto na sua pessoa, ou herdeiro da injustiça e da injustiça de outros” (omnis dives aut iniquus est, aut heres iniqui). A questão é: como se servir do dinheiro sem servir ao dinheiro? Atrevo-me a responder: partilhando, confiando e construindo um mundo de justiça, de fraternidade, de igualdade, de liberdade, de paz, devolvendo a dignidade àqueles que a perderam, pondo-se do lado daqueles que foram empobrecidos e descartados pelos poderosos do passado e do tempo presente e daqueles que são considerados pela hipocrisia de nossa moral como fracassados. Ademais, hoje, o marketing e a publicidade dominam totalitariamente os jornais, as revistas, as rádios, as telas de televisão, as redes sociais e a internet para conjugar dois verbos: TER e APARECER. A fé cristã, por sua vez, tem também seus dois verbos para conjugar: SER e CONFIAR. Jesus nos diz, em primeiro lugar, que a fé não é como o dinheiro. Ela não é alguma coisa que se tem ou não se tem, que se ganha ou se perde. Crer é ser, é existir, é viver, é aprimorar, é crescer, é desenvolver, é alegrar-se. Crer também é confiar, é não ter medo nem escrúpulo em se deixar iluminar pelo que se espera, é viver em confiança naquele que nos ilumina e nos guia, é coragem, é ousadia, é liberdade, é criatividade, é superar, é ultrapassar. Jesus nos diz, na sequência, que o dinheiro que nós temos, aquilo que materialmente possuímos, mesmo quando é pouco ou praticamente nada, deve servir para ser, não para ter, deve servir para confiar em um mundo novo, no Reino de Deus, e não para nos fazer aparecer.

     

                A primeira leitura do domingo de hoje (Am 8, 4-7) nos ajuda a compreender melhor o alcance da narrativa do evangelista Lucas que proclamamos: somos convocados para denunciar os ricos que esmagam os pequenos, exploram os pobres e os dirigentes que se acham os donos dos bens que lhes são confiados. Fala-se, ultimamente, no Brasil, uma grande bobagem: a defesa de uma tal de “escola sem partido”. As fontes bíblicas e as fontes cristãs mais genuínas são unânimes em tomar partido: o dos injustiçados, dos sem voz, dos menores, dos sem direito, dos desumanizados, dos humilhados, dos esquecidos. A pregação e a profecia de Amós, em seu livro, não têm papas na língua. E têm também o seu partido… E não é o partido dos ricos e dos poderosos! No século VIII a.C., sob o reinado de Jeroboão II em Israel, o comércio estava em franca expansão e o luxo se estendia, então, na capital, Samaria. O profeta Amós denunciou as injustiças cometidas pelos grandes proprietários de terras contra os trabalhadores. Aqueles os exploravam e os esmagavam até torná-los escravos: “dominar os pobres com dinheiro e os humildes com um par de sandálias, e para pôr à venda o refugo do trigo” (Am 8,6). E pior: os ricos latifundiários e os ricos comerciantes no tempo de Amós estão com pressa que o sábado termine para acelerar e continuar suas maldades em nome do próprio bolso: “Quando passará a lua nova, para vendermos bem a mercadoria? E o sábado, para darmos pronta saída ao trigo, para diminuir medidas, aumentar os pesos e adulterar a balança?” (Am 8,5). É desolador constatar que praticamente 29 séculos depois e em outra região do mundo completamente diferente da Samaria, no Brasil do ano do Senhor de 2016, a situação não é muito diferente... Ao se juntar à tradição recente de golpes de Estado frios e brancos em Honduras e no Paraguai, de natureza parlamentar – em parceria com a mídia local e com a omissão do poder judiciário –, o Brasil conheceu um golpe de força institucional – uma farsa engendrada ao longo de 2015 e 2016 e que atingiu seu desfecho no último dia 31 –, manipulando a Constituição Federal. A gestão do país está agora com grupos políticos reacionários e ligados ao mundo da finança especulativa. Um país conservador e marcado pela desigualdade e pela pobreza, sem políticas sociais e sem o respeito e o aprimoramento dos direitos sociais e das conquistas históricas dos trabalhadores e das minorias estaria condenado à barbarie. Agora manifesta-se a pressa daqueles sem escrúpulos e sem medo de vender e saquear – e que também são sem voto. Que os filhos da luz e servos de Deus tenham a esperteza dos filhos do mundo e servos do dinheiro para resistir com fé confiante, fezendo manifestar em suas ações a súplica do papa Francisco, no último dia 3 de setembro: “Em 2013, havia prometido retornar, no próximo ano, a Aparecida. Não sei se será possível. Mas, pelo menos, estou mais próximo dela [da estátua de Nossa Senhora da Conceição Aparecida] aqui [no Vaticano]. Convido-os a rezar para que ela [Nossa Senhora Aparecida] continue protegendo todo o Brasil, todo o povo brasileiro, neste momento triste. Que ela proteja os pobres, os descartados, os idosos abandonados, os meninos de rua. Que proteja os descartados que se encontram nas mãos dos exploradores de todo tipo. Que ela salve o seu povo, com a justiça social e o amor de seu Filho, Jesus Cristo.” Assim seja.

     

    MATEUS DOMINGUES DA SILVA é frade pregador e islamólogo. Pesquisador em história da filosofia árabe e em história da física medieval, é membro do IDEO (Institut Dominicain d’Études Orientales) do Cairo.

     

  • Para seguir Jesus é preciso saber renunciar

     

                  Prezados irmãos e irmãs.

             Continuamos nossa caminhada do Tempo Comum, tempo de esperança e de perseverança. Esperança na misericórdia e no cuidado que Deus tem para conosco e de perseverança no enfrentamento e superação das dificuldades e dos tropeços pelo caminho no seguimento de Jesus.

                  Vamos iniciar a vigésima terceira semana do Tempo Comum e também o mês de setembro, mês da Bíblia. As leituras deste domingo falam sobre a renúncia que devemos fazer para seguir Jesus verdadeiramente.

                   A primeira leitura (Sabedoria, 9,13-18) fala que a sabedoria humana não é capaz de discernir os caminhos que o ser humano precisa percorrer para realizar a vontade de Deus. Para isso, é preciso pedir a sabedoria que vem de Deus, dom do Espírito Santo.

                   O Salmo responsorial (89(90)) canta reforçando esse pensamento da primeira leitura sobre a sabedoria que vem de Deus. Reflete o salmista na fragilidade da vida e dos pensamentos humanos e na bondade de Deus que supre essas carências.

                 A segunda leitura (Carta a Filemon, 9b-10.12-17) dá um grande exemplo do desapego que é preciso fazer para ser fiel a Jesus: libertar um escravo (Onésimo) e trata-lo como irmão gerado pela fé em Cristo. Para a época o que Paulo sugeriu deve ter parecido loucura, mas é a verdadeira sabedoria cristã.

                O Evangelho (Lucas 14,25-33) propõem duas breves parábolas para falar da sabedoria necessária ao desapego para o seguimento de Jesus: a da construção da torre e a da guerra. A sabedoria ensina a dar a cada coisa o seu devido lugar, a julgar o que é mais e o que é menos importante, o que é mais e o que é menos necessário para o Reino de Deus, mesmo que isso exija uma escolha difícil e dolorosa.

              Jesus não pede o impossível, mas o que convém para o seu seguimento. A sabedoria cristã nos ajuda a estabelecer as opções preferenciais certas. E depois, é preciso realizar na prática essas opções sabiamente feitas. Para isso, a Bíblia nos proporciona os elementos necessários para conhecer a vontade de Deus e seus ensinamentos para conduzir nossa vida.

                   Que São Domingos, nosso pai, interceda junto a Deus em nosso favor para que a leitura e o estudo da Bíblia possam nos aproximar da sabedoria que vem de Deus e que esta nos ajude no discernimento necessário para as renúncias que o seguimento de Jesus exigem.

     

     

    Fr. Tonyglei Suave

Notícias

  • Depois que a Éditions du Cerf reeditou dois dos seus livros (Eu vos chamo de amigos e Que a vossa alegria seja perfeita), o grande teólogo dominicano concedeu uma entrevista exclusiva ao Le Point. A entrevista é de Jérôme Cordelier e publicada no sítio francês Le Point, 19-04-2014. A tradução é de André Langer.

     

    http://www.ihu.unisinos.br/noticias/530741-nossa-epoca-sofre-do-mal-da-banalidade-entrevista-com-timothy-radcliffe

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