Homilia

  • “A vida é dom de Deus não do ter e sim do ser”

     

                          Uma tradicional canção religiosa nos vem à mente, ao contemplarmos a mesa da palavra deste 18º domingo do tempo comum: “o Povo de Deus era rico de nada: só tinha esperança e o pó da estrada”. E mais importante ainda: “também sou teu povo, Senhor! E estou nesta estrada. Somente a tua graça me basta e mais nada!”

                         Aparentemente iniciada por uma visão pessimista que marca todo o livro do Eclesiastes (1,2), “vaidade das vaidades, tudo é vaidade”, recordamos ao refletirmos a Palavra deste domingo, um grande estudioso, exegeta dominicano, que até há pouco tempo esteve em nosso meio: frei Gilberto Gorgulho, OP. De modo eloquente, com sua voz anasalada, advertia-nos: “não se trata de uma visão pessimista acerca do ser humano. Porém, de uma visão bastante realista”.

                              Por meio do Eclesiastes, desde o início, somos chamados pelo Senhor a vivermos o essencial da vida humana: a graça de Deus que nos faz despojarmos do supérfluo, e de desejos que simplesmente copiam o secundário, que tanto gera, em nós, ambiguidades, desvios e desilusões. Na liturgia deste domingo, Deus se revela como o doador de toda a graça. E graça maior não há, senão, o próprio Deus que se dá a nós e nos dá o dom da vida.

                         Assim, o Divino Mestre nos diz: “tomai cuidado com todo o tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens” (Lc12, 15). Logo, somos postos diante do nosso essencial: a vida em abundância. Não dos bens que abundam.

                  O desejo de possuir muitos bens gera a corrupção em nós. Quando não satisfeito, provocará a tristeza. Já dizia o místico dominicano, Mestre Eckhart, em seu tratado “Da Divina Consolação”, que o desejo é a fonte de nossos males. Não deveríamos desejar nada e pedir somente o próprio Deus.

                       Esta visão de Deus pode, por um lado, nos levar a uma visão conformista e fazer que cruzemos os braços ao trabalho. Infelizmente, já no tempo dos discípulos do Apóstolo Paulo, algumas pessoas eximiam-se da responsabilidade do trabalho e de ganhar o sustento cotidiano: encostavam-se nos outros. Foi, por esta razão, preciso advertir aos tessalonicenses: quem não trabalha, não deve comer( II Ts 3,10). Por outro, quando nos deparamos com tanta miséria, alguém pode nos questionar se Deus não olha por aqueles que passam tantas dificuldades. A resposta acerca dos duros problemas hodiernos acerca da sobrevivência não está diretamente implicando Deus. O problema reside em que, movidos por ambições (Lc 12,18), deixamos o Cristo de lado. Ele é quem nos ensina o amor universal. E então, criamos falsas necessidades e vamos repetindo desejos e costumes que nos levam ao acúmulo de coisas, à concentração de bens. É o chamado desejo mimético (de mímesis) que quer dizer: desejo repetitivo, copiado. Abertos a esta sedução, nos tornamos presas fáceis da sociedade de consumo, que por meio de nossa fraqueza e uso de grandes técnicas de marketing, nos oferece tantos produtos que passamos a pensar que nós valemos pelo que temos e não pelo que somos e vivemos. Aí sim, cresce em nós a vaidade do ter ou a frustração do não ter,  na proporção que se apequena nossa felicidade.

                          O filósofo Maurice Blondel explicitou que não é possível saciar um desejo infinito, como o desejo da felicidade, da vida com bens finitos. Tamanho desejo somente pode ser saciado com um bem infinito, que a fé cristã nos revela que é o próprio Deus em nós (Cl 3,10). A vida de Cristo em nós, faz de nós o “homem novo”. É neste sentido que o banquete da Palavra nos traz um caminho que sacia nossa fome. A fome de beleza, com a presença e confiança em Deus que nos dá a graça e sendo graça, logo, mesmo redundantemente, mas para tornar peremptório o conceito (graça) é de graça (gratuito). E também nos sacia a fome de pão.

    Este dom divino implica também, decididamente, olharmos neste tempo de tanta valorização de bens materiais, o quanto há de estímulo do consumo, concentração e desperdício. Vivemos num planeta esgotado pelo acúmulo desmedido. Para que tanto “celeiro” acumulando, se há tanta gente passando fome?

                            Inúmeras vezes a mídia, que é alimentada pelo mercado, nos traz notícias de que a solução para a fome seria o simples aumento da capacidade produtiva do planeta. Como se, controlemos a natalidade e aumentemos a produção, daremos fim à miséria. Entretanto, organismos internacionais, credíveis, afirmam que tanto já temos a produção necessária para alimentar toda a população mundial, quanto o planeta também já está cansado, esgotado por uma superprodução mal administrada e sobretudo mal distribuída.

                          Bastaria na verdade, admitirmos que a vida é um dom de Deus, que ela sim é o bem maior de igual valor, em conformidade com as leituras de hoje, e termos a coragem de diminuir o tamanho de nossos armazéns e a ambição de nossos lucros, para compartilharmos humanidade, produção e vida. Daí, então, prolongarmos em quantidade e qualidade da vida na terra. Deixarmos, na linguagem do evangelho de hoje, de sermos “insensatos” ou mesmo insanos: como pode a humanidade queimar alimento de estoque regulador de preços dos governos, enquanto há uma parcela da humanidade que morre de fome. Parte da humanidade que ainda nem faz parte do mercado de alimentos não poderiam ser alimentada pelos alimentos que seriam queimados?! A queima de alimento dos estoques reguladores deveria ser reconhecida como um escândalo contra a humanidade num mundo em que tantos seres humanos ainda morrem de fome.

                    Urge tomarmos consciência que a vida é um dom de Deus. E assim, educarmo-nos a partilharmos da mesma mesa, na consciência de estarmos em comunhão num mesmo ser: o ser humano. Ouvindo o Senhor hoje, seríamos tanto mais racionais, quanto mais humanos.

                        Rezemos assim, a mesa da Palavra com o Mestre Eckart: “Senhor, não vos peço nada. Somente vos peço que Vós vos dais a mim”. Ou nos termos de nossa canção: “somente a tua graça, me basta e mais nada!”

     

    Por frei Helton Barbosa Damiani, OP

    Mestre de Noviços,

    vigário da Paróquia São Domingos,

     em Uberaba

  • Reflexão homilética sobre a festa de Santa Marta – 29 de Julho de 2016

     

     

    Frei Luiz Carlos, OP[i]

     

                      A liturgia celebra neste dia 29 de Julho a festa de Santa Marta. Nesta narrativa do evangelho de Lucas nós temos o comportamento diferente das duas irmãs. Marta aparece como a grande serviçal que acolhe o mestre Jesus em sua casa, e sua irmã Maria, que não quer ajudar nas tarefas domésticas, mas senta-se aos pés do mestre.

                    O que significa receber o Senhor Jesus?  É a pergunta que poderíamos fazer.  O que significa dizer “recebeu em sua casa”? Trata-se de uma questão crítica. Precisamos compreender melhor esta expressão tão importante sobre a acolhida.

                    Primeiramente, Receber a Cristo apropriadamente é dar a ele o lugar de honra, supremacia e centralidade. Muitas vezes dizemos acolher Jesus em nossa vida, quantas vezes afirmamos isso em nossas orações, ou em nossa vida espiritual. Mas muitas vezes também alguma outra coisa ou pessoa que não é Jesus geralmente toma o lugar central.

    Porém, aqui está o mais trágico. Ao dizermos que Jesus ocupa um lugar central em nossa vida, as nossas ações nada têm de centralidade de Cristo Jesus, isso é paradoxal. Somos muitas vezes sectários e elitistas.

                 Jesus Cristo, no entanto, não quer o segundo lugar, ele deixa isso claro em outras passagens do evangelho. Ele não se sente “em casa” em nenhum lugar ou pessoa que não lhe dê absoluta e suprema centralidade. Ele deseja ser mais do que um convidado. Deseja mais que ser um simples hóspede. Ele quer ser o dono da casa. “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”. (Mt 16,24).

               Muitos cristãos tratam Jesus como se ele fosse um hóspede ilustre ou um convidado de honra invisível. Mas um convidado é sempre um visitante, por ilustre que seja. Jesus Cristo deseja ser mais do que um convidado. Ele quer ser a Cabeça do corpo que somos todos nós. Somente quando o acolhemos verdadeiramente, ele se sente em casa, sobretudo no outro.

                 Como cristãos temos quereceber tudo o que ele é, isto significa, deixá-lo à vontade, ocupando o lugar que ele deseja e não o que nós determinamos. Se não for assim, é receber “meia-refeição”, é recebê-lo nos nossos próprios termos. Isto não é recebê-lo como Ele é. Em diversas ocasiões nos evangelhos, Jesus fez esta afirmação bastante desafiadora no que tange a acolhida; “aquele que recebe os que eu envio, a mim me recebe”.

                    O evangelho deste dia nos mostra formas distintas de acolher Jesus, Marta nos afazeres domésticos; Maria sentada está aos pés do Senhor. Esta é a postura de um discípulo. Somente o discípulo senta aos pés do mestre. Um escravo nunca sentaria aos pés do seu Senhor, é uma atitude de liberdade diante do mestre. E o discípulo senta para escutá-lo. Escutando ele apreende com o mestre. E aprende porque ouve atentamente a Palavra dele.

                   Assim, então, esta casa nos ensina a acolher Jesus. E na casa de Marta e Maria, aprendemos com elas, uma que a escuta outra que está em ação, mas ambas nos ensinam escolher a melhor parte, e a melhor parte é sentar-se aos pés do Jesus para escutar, e tornarmos assim seus discípulos.

                  Marta está ocupada nos afazeres domésticos, mas Jesus não pede uma refeição. Ao contrário, ele quer ensinar. Voltemos para o espaço da cozinha e olhemos para Marta. Ela tinha uma coisa em mente. Ela estava interessada em dar a Jesus uma recepção apropriada. Ela provavelmente estava preparando uma grande refeição para Jesus e seus discípulos. Ela estava servindo na cozinha, preparando a comida, pegando os pratos, pegando os melhores utensílios de prata, etc. Mas, na medida em que os minutos passam, ela começa a perder a paciência.

                 Sua irmã não está lhe ajudando em nada. Ao contrário, ela está na sala sentada aos pés de Jesus como um de seus discípulos, parecendo perder tempo com Jesus, onde só havia homens, o que ela como mulher estaria fazendo ali, se o lugar dela é na cozinha ajudando sua irmã?  Em outras palavras, Maria está se comportando como um homem. Marta continua a trabalhar na cozinha, na esperança de que Maria irá se levantar e ajudá-la.

               Ela para um pouco. Mas ela simplesmente não pode esperar mais. Ela irrompe tempestuosamente a sala de estar e protesta para Jesus: “Maria não está me ajudando”. Você nem se importa! Diga a ela para me ajudar. Notemos que no meio do protesto de Marta, Maria fica silenciosa. Ela não se defende. Ela deixa que o Senhor a defenda, e ele o faz.

                 A resposta do Senhor para Marta é carinhosa. “Marta, Marta, você está preocupada e atribulada com muitas coisas. Maria está concentrada em uma só coisa. E esta coisa é a mais necessária”. É a melhor coisa, e o que é a melhor coisa? Ser seu discípulo. Uma só coisa é necessária, diz Jesus‚ “e eu não vou tirar isto dela”. A melhor parte, como alguns teólogos traduzem é conhecê-lo. E a esse conhecimento segue um serviço inteligente. Um serviço que flui do amor, da amizade, e do companheirismo. Jesus não disse que as coisas com as quais Marta estava preocupada eram erradas. Ele simplesmente apontou que somente uma coisa era necessária. E tampouco Jesus disse a Marta para parar de servir. O que ele fez foi expor o fato de que seu serviço estava mal guiado e mal direcionado. Seu coração estava no lugar errado. Ela estava concentrada na coisa errada. Ela estava tão ocupada com preparar uma comida apropriada que ela nem percebeu que Deus, em pessoa, estava sentado em sua sala de estar!

                         Como cristãos e discípulos somos chamados ao serviço. E nosso serviço ao Senhor tem sempre que fluir do nosso companheirismo com Ele. Aprendemos assim com Marta e em sua casa que devemos antes sentar-se aos pés do Senhor e a ouvir sua Palavra, e depois se colocar a serviço de todos.

         

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     



    1. Frei Luiz Carlos da Silva, OP; Bacharel em Teologia e pós- graduado em Filosofia. Professor e assistente religioso e pastoral em Colégios Católicos em São Paulo. Reside no Convento Santo Alberto Magno em Perdizes - SP.

  • SANTA ANA E SÃO JOAQUIM (26 de julho)

    Pais de Maria

     

             Neste 26 de julho celebramos santa Ana e são Joaquim, os avós de Jesus.

             A Bíblia nada fala a respeito deles; a tradição sim.

             Comemorar os avós de Jesus é fazer memória da encarnação do Filho de Deus. Ele “armou sua tenda” entre nós; viveu em tudo a condição humana (menos o pecado)!

    A festa da data de hoje vem a nos dizer, com clareza: Jesus tinha avós! Nada mais humano que brincar com os avós!

                   Os avós lembram a tradição, as raízes familiares; isto é fator preponderante para a segurança de qualquer pessoa: nos reforça a identidade, ao fato de que não estamos sós neste mundo, mas pertencemos a uma família; ou melhor, os avós nos lembram que somos a mistura de 4 famílias diferentes, 4 tradições diferentes, 4 maneiras de se viver diferentes, condensadas e unificadas na nossa pessoa.

                     Por outro lado, se nosso relacionamento com nossos pais muitas vezes foi ou é conflituoso (na infância, adolescência e também às vezesna  juventude o conflito é necessário para o crescimento da pessoa), com os avós normalmente a história é diferente. Os avós em geral  não são exigentes com os netos, apenas os curtem; é uma relação super agradável, de cumplicidade. Tem que ser assim. É o equilíbrio vital entre a rigidez (representada normalmente pelos pais) e a docilidade, tão necessárias para o crescimento e amadurecimento de todo ser humano.

                   Toda a sensibilidade e compaixão humanas que Jesus demonstrava para com as pessoas devem ter, sem dúvida, suas raízes no carinho e amor que ele recebeu de seus avós.

                 Valorizemos e celebremos o dia dos avós, como fator de equilíbrio e harmonia das famílias, tão necessários para uma restauração da nossa sociedade. Afinal, os avós “são homens e mulheres de misericórdia; seus gestos de bondade não serão esquecidos. Eles permanecem com seus descendentes; seus próprios netos são sua melhor herança” (Eclo 44,10-11).

     

    Fr. Marcos Belei, OP

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  • São Domingos: dinamismo apostólico contemplativo
    Em Domingos de Gusmão (1170-1221) encontramos a docilidade, a determinação e a fidelidade ao Evangelho, que não fecha, mas abre portas. Que não encerra, mas inicia novos processos que conduzem ao aprofundamento de nossa capacidade de buscar a verdade, respeitando os valores e a cultura dos povos. Domingos é o homem da misericórdia e do diálogo. Foi com esta inspiração, em um dia frio curitibano, que nos reunimos para um encontro com este grande místico cristão, contando com a assessoria do frei dominicano André Boccato, professor de teologia moral no Mosteiro de São Bento, em São Paulo. Esta iniciativa, promovida pelo CJCIAS/CEPAT, com o apoio do IHU, ocorreu na Casa do Trabalhador, no último sábado, 30 de abril.
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