Religioso: uma resposta particular ao chamado universal

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frei Leandro Glerean, OP 

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A fim de acompanhar a nova concepção de Igreja do Vaticano II, a vida religiosa passou por uma profunda e necessária mudança. A santidade de vida não é mais propriedade exclusiva daqueles que se consagram por meio da profissão dos conselhos evangélicos (os votos), mas essa passa a ser uma exigência a todo cristão, pois a Igreja, agora entendida como koinonia, ou seja, comunhão, é Povo de Deus, onde cada um vive e serve segundo sua vocação particular.

Não é por acaso que a Vocação Universal à Santidade precede a Vida Religiosa na redação da Lumen Gentium. Este fato nos mostra a verdadeira identidade da vocação religiosa: antecipação do Reino celeste aqui na terra. Estando a Vida Religiosa, neste documento conciliar citado (no qual a Igreja pensa a si mesma), fica claro que ela (a Vida Religiosa) é parte integrante do Corpo Místico de Cristo e pertence ao Povo de Deus: os religiosos não estão à parte da Igreja, como um corpo estranho, mas são aqueles fieis chamados de maneira especial a viver a “vocação universal à santidade” na Igreja e no mundo, colocando-se a serviço de Deus.
No entanto, o documento que trata especificamente da Vida Religiosa no Concílio se chama Perfecta Caritatis, ou seja, “A Perfeita Caridade”. O antes chamado “estado de perfeição” do religioso não é um privilégio, mas uma opção radical de homens e mulheres que buscam assumir em sua vida cotidiana a radicalidade evangélica. É dizer ao mundo que é possível viver e praticar o que narram os Atos dos Apóstolos (2, 42).
 Através da profissão dos conselhos evangélicos, a saber, pobreza, castidade e obediência, transformamo-nos em seguidores radicais de Cristo e testemunhas vivas de que a vida proposta por Ele é possível neste mundo. Pela profissão dos votos, entregamo-nos a “Deus sumamente amado” e radicalizamos as promessas feitas no batismo, de modo a “colher frutos mais abundantes da graça batismal”.
Deste modo, podemos concluir que a Vida Religiosa se torna um sinal claro do mundo que há de vir: é chamada a ser um sacramento da vida cristã e do Reino de Deus. Como nos disse o Vaticano II:

Como, porém, o Povo de Deus não possui aqui morada permanente, mas busca a futura, o estado religioso pelo fato de deixar seus membros mais desimpedidos dos cuidados terrenos, ora manifesta já aqui neste mundo a todos os fiéis a presença dos bens celestes, ora dá testemunho da nova e eterna vida conquistada pela redenção de Cristo, ora prenuncia a ressurreição futura e a glória do Reino celeste.

Assim, quero animar a todos os queridos irmãos e irmãs que puderam ler um pouco sobre a vocação religiosa a discernir, e a incentivar aos que despertaram para este caminho de seguimento de Cristo! Sabemos que não é um caminho fácil, mas que os frutos que colhemos nele enchem o coração de paz, esperança e amor para continuar servindo e amando ao Deus, que nos chamou para esta missão.
Os religiosos difundem a intuição do seu fundador, que discerne um carisma específico, que é sempre dom do Espírito Santo, e propõe-se a segui-lo; agindo assim cada família religiosa participa da missão universal da Igreja, ou seja, ser sinal do Reino de Deus e ponte de reconciliação de todo o gênero humano com seu Criador. No nosso caso, na Ordem dos Pregadores, temos como fundador São Domingos de Gusmão, que intuiu na Igreja o carisma da Pregação da Palavra de Deus. Para tanto, instituiu em nossas Constituições que: para ser eficaz e convincente, a boa pregação deve ser alimentada no estudo, na vida comum, na oração e na observância regular. Eis os chamados “pilares” da nossa vida dominicana.
O dominicano, então, é chamado a pregar a Palavra de Deus com sua vida e suas palavras. Essa preocupação implica em uma constante ascese dos costumes, buscando coerência entre o se prega e o que se faz.
Para o dominicano, a pregação da Palavra não uma formalidade, mas deve brotar da abundância da contemplação (contemplata aliis tradere), por meio do estudo, comprovada na vivência comunitária e confirmada no silêncio da experiência de Deus.
Como nos diz nossa Constituição, a pregação da Palavra é o resultado da harmonia entre todos estes elementos intrinsecamente ligados, que levam a família dominicana (frades, monjas, irmãs de vida apostólica e leigos) a darem ao mundo a resposta que se espera de pessoas que experimentam o contato com Deus diariamente.
Logo, o dominicano deve estar no mundo, dialogando com este nas suas fronteiras, as quais são cada vez mais diversas e complexas como: economia, ciências, artea, situações limite (prostituição, cárcere, fome, guerra urbana,etc.).
O dominicano não vê o mundo como espaço do diabo, da perdição, mas o lugar onde os filhos e filhas de Deus se projetam e fazem a história; é lugar da encarnação de Deus. Os flagelos humanos não são fatalismos, prelúdio de um “fim do mundo”, mas gritos de Deus e por Deus: aí deve estar o dominicano, a propor uma resposta à luz do Evangelho de Jesus Cristo, afinal, nosso claustro é o mundo!






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