S. Paulo diz aos Coríntios: "Vamos apresentar carta de recomendação a vocês? Ou pedir carta para vocês? A nossa carta de recomendação são vocês mesmos, carta em nossos corações, conhecida e lida por todas as pessoas. Vocês são uma carta de Cristo, carta escrita não com tinta, mas nas tábuas de carne do coração de vocês"( 2 Cor. 3,1-2). Para Paulo, mais importante do que a carta ou o documento é a vida, pois "a letra mata, o espírito é o que dá vida" (2 Cor. 3,6 b).

Quero abrir com este pensamento de S. Paulo uma reflexão informal que pretendo fazer com vocês. Paulo insiste que não precisa de carta de recomendação à comunidade de Corinto, porque ele goza de crédito diante do povo. A minha carta são vocês. Carta escrita nos corações.

Hoje se dá muito valor ao documento, ao que está escrito, ao diploma. Já ficou bem longe o que se dizia: a minha palavra de honra é um fio do meu bigode... S. Paulo diz que a letra mata, o espírito é que dá vida.

Nós fomos formados muito na base da lei. As nossas leis sempre criaram obrigatoriedade. É interessante que a primeira lei escrita que aparece no seio do povo de Deus é o Decálogo. É por isto que Moisés é chamado de legislador. O Povo de Deus é um povo em formação. É um povo que se articula na base dos costumes que vêm dos antepassados, dos antigos.

Um dia este povo, no sofrimento da caminhada árida do deserto, se revolta e toma uma atitude radical: garimpa o ouro do deserto, ouro que não tem valor, porque não existia comércio, constroi um bezerro com este ouro e diz: "Este aqui é o nosso Deus".

Moisés está no alto do Sinai, em oração diante de Javé. Talvez Moisés tenha se descuidado das suas obrigações como condutor do povo, para se dedicar ao diálogo com o Senhor. Javé lhe diz: Desce para a planície, porque o povo pecou, construiu um Deus próprio e me recusa como seu Deus. Leva, gravados em pedras, os pontos básicos do bom comportamento. Então apresenta o seu código, que se resume no amor, justiça e respeito mútuo. Que se ame a Deus em primeiro lugar e sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo. O amor é a base do relacionamento com Deus e das pessoas entre si. O amor é a base e o fundamento da lei. É por isto que S. Agostinho diz: "ame e faça o que quiser".

Porque quem ama não infringe a lei, porque a lei é a reguladora da vida.

É interessante observar que a lei aparece quando acontece o pecado. S. Paulo, no capítulo 7 da carta aos Romanos, estabelece um paralelismo entre o pecado e a lei, dando a entender que a lei aparece quando pecamos, ou ultrapassamos os nossos direitos. Nós transgredimos e aparece a lei para nos controlar. Sem leis rigorosas não assumimos a corresponsabilidade diante do bem comum. É preciso campanhas e normas de fraternidade para que vivamos a fraternidade e sejamos irmãos.

Nós, mais velhos, fomos formados muito na base da lei e dos mandamentos, sobretudo da lei religiosa. O povo começou a descuidar da participação da Eucaristia, então se colocou a obrigação, sob pena de pecado grave, de "assistir" à missa aos domingos. Lei obrigando a comungar por ocasião da Páscoa e se confessar pelo menos uma vez ao ano...

Descuidou-se da oração, a lei vem trazer obrigatoriedade de rezar. Sobretudo uma legislação rigorosa, obrigando o clero à oração canônica, por horas ao dia, recitando tantos e tantos salmos...

Nós acabamos caindo num excesso de legalismo e casuismo moral. Não era muito difícil saber até onde chegava o pecado venial e começava o mortal. Se alguém ia à missa e chegava depois do ofertório, era muito simples, podia assistir a missa até o fim e participar de outra até o ponto em que tinha chegado na anterior. Talvez tivéssemos excesso de sacramentalismo e devocionismo, mas pecávamos por deficiência de evangelização... Devemos convir que quando Cristo enviou os Apóstolos ele os enviou antes de tudo para evangelizar: "Ide, ensinai tudo o que eu vos ensinei, batizai... quem crer e for batizado será salvo". Portanto a evangelização e a fé devem preceder os Sacramentos. A Igreja, desde o início, levou a sério o mandato de ensinar. Não se batizavam os convertidos senão depois de um catecumenato sério e longo.

É preciso viver, para receber o sacramento sobre a vida e sobre os compromissos que se vive. Podemos perguntar:

quantos cristãos vivem os sacramentos que recebem? Pode-se dizer que o Brasil é um país católico? Numa paróquia de 40 ou 50 mil habitantes, ao responder à pesquisa do agente do recenseamento, a quase totalidade se diz católica.

Quantos têm pelo menos a mínima participação de Igreja? E, sobre este povo nós colocamos leis: quem não participa da missa dominical comete pecado grave. Pode?...

Daí não me impressiona quando se diz que os evangélicos e tantas seitas vão ganhando corpo. Pelo menos que as pessoas procurem viver e servir a Deus em conformidade com a sua consciência e as suas convicções.

Vejo como importante participar da Eucaristia como alimento da vida em Cristo, como comunhão com Deus e com os irmãos. Quem é comprometido com o Evangelho e vive a fé não se afasta da prática eucarística. Porem, para nós, a Eucaristia deveria estar fora de qualquer obrigatoriedade por preceito, mas ser força de vida. É para nós muito mais necessidade do que obrigação.

Assim deve ser para nós também a oração. Muito mais do que uma obrigação por preceito, a oração é necessidade para a vida cristã. Diz o salmo l40,1-2: "Senhor, eu te chamo, socorre-me depressa, ouve a minha voz quando eu clamo a ti.

Suba a minha prece como incenso à tua presença, minhas mãos erguidas como oferta matutina".

Encontramos na S. Escritura, tanto no Velho, como no Novo Testamento, a oração como expressão de vida e de fé. É interessante que a oração na Bíblia é leve, simples, muitas vezes alegre, como nos salmos. O salmo 150,3-6 diz:

"Louvem a Javé tocando trombeta, louvem a ele com cítara e harpa! Louvem a Deus com dança e tambor, louvem a ele com cordas e flauta! Louvem a Deus com címbalos sonoros, louvem a ele com címbalos vibrantes! Que todo ser que respira louve a Javé. Aleluia!" Não encontramos uma oração preceptiva e obrigatória - nem todos os que dizem "Senhor, Senhor" entrarão no Reino... (cfr. Mt. 6, 5-8).

A oração de Cristo é sempre expontânea, diálogo direto com o Pai. E ele recomenda a oração : "pedi e recebereis" - "É preciso sempre orar"...

Talvez nós tenhamos codificado excessivamente a oração, criamos obrigações e perdemos o senso da espontaneidade.

Que nós nos desobriguemos um pouco mais da oração, mas que nós percebamos que a oração é uma necessidade da nossa vida, e então oremos melhor e mais. Se eu vou fazer uma visita a um amigo, naturalmente eu mantenho diálogo agradável com este amigo. Não é necessário que nós sejamos obrigados a conversar por tempo determinado. Às vezes até fazemos silêncio, e nos sentimos bem neste silêncio. Então que haja mais vida do que lei na nossa oração, porque também aqui "a letra mata, o espírito é que dá vida".

O que é espiritualidade par nós? Não é tanto estarmos tempos e tempos em oração, mas espiritualidade para nós é a nossa vida como cristãos, comprometidos com o Evangelho e com a fé. A nossa espiritualidade não consiste em vivermos rezando, mas em vivermos com autenticidade a vida cristã. Não somos espirituais só quando rezamos, mas no nosso jeito de sermos cristãos