TADEU MORAÇABA, O ESCRITOR aumentar fonte

FREI BETTO

Conheci Tadeu Moraçaba em Belo  Horizonte, nos tempos em que repórteres e editores se confraternizavam, todo  fim de tarde, na Gruta Metrópole, na rua da Bahia. Seu sonho: ser reconhecido  como escritor.

 Há anos se empenhava em redigir seu primeiro  romance, convencido de que, assim, passaria a integrar essa brilhante galáxia  de seres inteligentes e criativos que, sem medo do ridículo, se dão inclusive  o direito de se celebrarem como imortais.

 Tadeu Moraçaba tinha  certeza: tivesse nascido em Paris, em 1780, ou em São Petersburgo, em 1840,  não ficaria horas debruçado sobre a máquina de escrever, à espera de  inspiração.

 Há escritores que são, antes de tudo, seus  principais personagens. Já nascem em épocas e lugares imantados de clima  literário. Tadeu Moraçaba acreditava que, para James Joyce, deve ter sido  fácil deixar fluir o enredo de Ulisses que, como uma onda de calor que  se desprende do chão, emergia das ruas de Dublin!

 Dostoiévski  encontrou na Rússia czarista, que o levou a amargar quatro anos de cárcere, o  cenário adequado às suas histórias. Émile Zola escrevia como um experiente  orador político derrama sua verve indignada sobre fatos que envergonham a  espécie humana.

 No entanto, Guimarães Rosa precisou regressar ao  sertão de Minas e travestir-se de vaqueiro para criar Diadorim. Em Minas, a  literatura é sofrida, fruto da tenacidade de poucos que ousam romper o  misterioso silêncio de suas montanhas. Em Minas, a arte é bela e muda, como os  profetas de Aleijadinho. No máximo, o lamento gutural, monocórdio,  teluricamente gregoriano, do canto de Milton Nascimento.

 Minas  se espelha na timidez uniformizada dos coretos de praça. Nada de orquestras ou  sinfônicas. Na literatura, meia dúzia de obras por autor já é um luxo. Nada de  estranho, portanto, que Augusto dos Anjos tenha se abrigado em Minas para  escrever um único poema, Eu, suficiente para fazê-lo figurar entre os  mais talentosos poetas brasileiros. Fernando Sabino ficou como autor de  Encontro marcado.

 Tadeu Moraçaba experimentava as mesmas  dores de parto, agravadas por sua sólida convicção de que seria o Balzac ou o  Hemingway da literatura mineira.

 A última vez que nos vimos foi  no restaurante Scotellaro, onde se comia um delicioso filé com feijão  tropeiro. Perguntei-lhe pelo romance. Lamentou não conseguir dar  prosseguimento. Perfeccionista, mais rasgava laudas do que criava. Indaguei  quanto tempo ele trabalhava no texto:

 ¾ Seis anos.

 ¾ Seis anos?!  

 ¾ Sim, e acho pouco. Quero personagens tão  elaborados quanto os que trafegam nas páginas de Thomas Mann ou Steinbeck.  Almejo uma figura tão universal quanto Dom Quixote e Eugene Oneguin. A igreja  do Pilar, em Ouro Preto, levou vinte anos para ser construída. Marguerite  Yourcenar demorou vinte e sete para escrever Memórias de Adriano, e  Goethe, quase sessenta para terminar Fausto. Não tenho  pressa.

 De fato, ninguém acreditava no talento literário de Tadeu  Moraçaba. Era considerado um jornalista medíocre, editor adjunto de política.  Seu texto era prolixo e arrastado. Quando repórter, redigia em cinco laudas o  que caberia em três.

 Convencido de seu talento, Tadeu Moraçaba  tomava como ofensa o fato de os editores não darem destaque às suas matérias.  Afinal, passou a considerar o jornalismo uma atividade menor, necessária para  garantir-lhe o salário e permitir que, em casa, se dedicasse à elaboração de  sua obra-prima.

 Tinha tudo planejado: cinquenta capítulos,  oitocentas laudas. “Livro fino não provoca impacto”, dizia. Mantinha em seu  quarto-escritório-biblioteca, próximo à estação rodoviária, o organograma  completo do romance, acompanhado do gráfico da complexa trama entre os  personagens.

 Perguntei se ele lia muito. Retrucou que era mais  escritor do que leitor. E apelou para Rimbaud que, aos dezenove anos e,  segundo ele, pouca leitura, havia criado  o clássico Uma estação no  inferno, dando-se ao luxo de encerrar sua carreira literária aos trinta e  dois.

 Tadeu Moraçaba sofria de ansiedade autoral, essa síndrome  que toma conta de quem mais almeja ser publicado do que criar uma obra  literária consistente. Nunca tive acesso aos originais do romance. Não tenho  ideia se logrou terminá-lo.

 Passamos muitos anos sem nos ver.  Agora soube que o encontraram morto na pensão em que morava. Do lado da cama,  uma lixeira com papéis queimados. Junto, um bilhete: “Obra completa de Tadeu  Moraçaba.”

 

Frei Betto é escritor, autor de “A arte de  semear estrelas” (Rocco), entre outros livros.







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